Em entrevista concedida
Ligia Gomes Víctora

Em entrevista concedida ao Studio de Psicanálise, em outubro de 2013, Ligia Gomes Víctora fala sobre a Topologia e sua aplicação à Psicanálise.

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Ligia Víctora é Psicanalista. Membro da APPOA. Membro da ALI. Responsável pelos Seminários de Topologia da APPOA

O que é topologia? O que caracteriza a topologia?
A topologia é um ramo das Matemáticas – provavelmente o mais jovem. Aparece no final do século XIX, em textos de Poincaré e de Listing. Embora seus primórdios datem do século XVIII, com Euler e a solução para o problema das pontes de Königsberg, que envolviam uma lógica entre sete pontes que ligavam as três regiões da cidadezinha. No início foi chamada de Analysis situs, que significa o estudo da posição ou do lugar.
Caracteriza-se por ser uma “geo-não-metria”, pois não interessam as medidas de tamanho ou de ângulos, mas apenas as vizinhanças entre os pontos e certos invariantes que devem ser respeitados.

É possível afirmar que Freud fez uso da topologia?
Sim, ele tentava em seus esquemas utilizar a topologia, que chamava de “Topografia”. Embora ele fosse absolutamente contemporâneo da banda de Möbius, que foi criada (ou descoberta) em 1858 (Freud nascera em 1856) – ele não a conhecia. Se a conhecesse, teria tido respostas para certos problemas que o acompanharam por toda sua obra – como aquele de como algo “entra” no Inconsciente e como “sai” para o Consciente, embora ainda lá permanecendo.

Pode-se dizer que as figuras topológicas podem ajudar a identificar a estrutura clínica do Sujeito ou a posição subjetiva deste que se apresenta demandando uma análise?
A Topologia ajuda a compreender e a formalizar a Psicanálise, uma vez que precisamos sempre de outra linguagem lógica para poder afirmar que uma sentença é verdadeira. Lembrando que “estrutura”, para nós, significa a maneira como o sujeito lida com os significantes advindos do outro. Estas modalidades de reação – ou de implantação do nível simbólico – é o que nos diz se o sujeito é neurótico ou psicótico. Suas “relações com a realidade”, como diria Freud. E isto muda durante uma psicanálise.

Há especificidades para a psicanálise com crianças, adolescentes e adultos, no que se refere aos objetos topológicos?
Sim. Podemos pensar em figuras e nós diferentes para cada paciente. Cada um amarra seu nó do seu jeito, como diria Marc Darmon.

Em seu livro Topologia e Clínica Psicanalítica você sustenta a hipótese de que é possível haver migrações entre estruturas clínicas. Como a topologia ajuda a pensar essa questão de migração ou passagem de uma estrutura a outra?
Partimos do princípio de que há uma característica diferenciável para cada estrutura ou “variedade topológica” – como se diz em Topologia – e de que existe uma passagem possível entre as diferentes variedades, desde que se façam cortes e colagens, mantendo-se os mesmos pontos anteriores – o que se chama de “homeomorfismos não-isomórficos” ou “difeomorfismos”. Da mesma forma, podem-se operar cortes durante uma análise na fala do analisando, que irão fazer com que seu discurso se reorganize sob outras formas.
Os cortes são feitos pela interpretação, pontuações no discurso do paciente, etc. E se dão sempre através da palavra, é claro. Todo ato analítico se dá sobre e através da palavra.
A história do paciente continua a mesma, mas a maneira dele contar e lidar com ela pode ser muito diferente.

O que a hipótese das migrações lança como desafio para o trabalho clínico? Quais implicações trazem para os psicanalistas hoje?
Os diagnósticos nosográficos (por sintomas ou síndromes) – da DSM – ou nosológicos (por estruturas) – da CID – que aprendemos na Universidade, assim como os antigos rótulos das primeiras classificações das doenças anteriores a Kraepelin – que dividiam os loucos entre “insensatos”, “furiosos”, “imbecis”, etc… – são como rótulos fixos e não condizem com o que vemos em nossa clínica.
O que lidamos no cotidiano da psicanálise são, na maioria dos casos, pessoas com histórias extraordinariamente plásticas, maleáveis, e ansiosas por mudanças. Embora muitas se afeiçoem a seus sintomas e estes sejam persistentes, ou resilientes, observamos muitas vezes alterações do discurso compatíveis com passagens entre neuroses e mesmo da psicose à neurose e vice-versa. Os estereótipos psiquiátricos fechados e imutáveis não condizem com o que vemos, mas a topologia nos ajuda a compreender e formalizar o que se passa em nossa clínica.