Entrevista concedida por Leda Bernardino

Em entrevista concedida ao Studio de Psicanálise, em fevereiro de 2016, Leda Bernardino fala sobre educação infantil e seus desafios na contemporaneidade.

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Psicanalista, analista membro da Associação Psicanalítica de Curitiba. Doutora em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela USP. Pós-doutorado em Tratamento e Prevenção Psicológica pela Universidade de Paris 7. Pesquisadora FAPESP. Autora, entre outros, do livro “O que a psicanálise pode ensinar sobre a criança, sujeito em constituição” (Ed. Escuta).

Studio de Psicanálise:  Leda, em maio você estará em Maceió para conversar sobre as dificuldades em educar crianças e jovens nos dias de hoje. Entre as diversas dificuldades existentes, na sua opinião, quais são as que nos desafiam mais? E como podemos lidar com essas questões na busca de soluções e, até mesmo, trabalhar na perspectiva de prevenção destas dificuldades.

Leda Bernardino: Penso que todas as épocas trazem desafios importantes para os educadores – sejam pais ou professores. Na nossa época lidamos, além disso, com mudanças estruturais importantes na sociedade, principalmente com o desenvolvimento galopante das tecnologias. Como a educação se dá num campo simbólico –  pois cabe aos pais e aos professores introduzir as crianças e jovens na organização cultural em que vivemos – viver em um mundo que dá cada vez mais importância às imagens e aos objetos enfraquece o diálogo, a força das palavras, das regras e das leis essenciais à convivência em sociedade.  A prevenção e a atenção a estas dificuldades começam desde o cuidado com a primeira infância e com os jovens pais, para que possam dar importância ao que realmente é essencial à educação: a transmissão da cultura através das palavras e das experiências vividas.

Como a teoria psicanalítica pode nos auxiliar nesta tarefa de educar nossas crianças e jovens?

A psicanálise é uma teoria que valoriza as palavras e seu alcance na constituição da subjetividade. Através da teoria psicanalítica, construída há mais de cem anos por vários clínicos que pesquisaram a fundo o psiquismo, conhecemos quais são as operações psíquicas fundamentais para que uma criança possa se tornar falante em nome próprio, para que se torne na sequência um adulto autônomo e responsável por suas escolhas. Assim, temos muito o que contribuir no debate com pais e professore, a partir desta ideia de educação no sentido amplo com a qual trabalhamos, pois, segundo Lajonquière, “educar é transmitir marcas simbólicas”.

Seja em nossos consultórios, nas escolas, na sociedade em geral, nos deparamos com um adulto em crise de identidade, confuso com seu papel frente aos mais jovens. No que isso tem contribuído para o tipo de dificuldades que temos encontrado? E como podemos lidar melhor com isso?

A modernidade teve esta característica de romper com as tradições e desvalorizar o passado em prol de um futuro sempre mais promissor; a pós-modernidade acrescentou a isto a extrema valorização da tecnologia e da ciência. Nestas bases, é difícil para o adulto valorizar o que tem a dizer sobre si mesmo e sobre o mundo perante os mais jovens. Ao negar a diferença de gerações, a diferença de sexos e a necessária hierarquia no sistema familiar, a sociedade atual deixa os adultos sem consistência para transmitir o que para eles mesmos é difícil de construir: sua identidade simbólica. Falar sobre isto é essencial para encontrar as vias simbólicas do diálogo, fundamental nas relações humanas.

Com o aumento de casos diagnosticados como TEA (Transtorno do Espectro Autista), hiperatividade, e até mesmo depressão na infância e adolescência, qual é o papel da escola nesta nova realidade? Qual a importância dos diagnósticos diferenciais? E qual o melhor encaminhamento possível?

Além dos desafios próprios à tarefa de educar, já situada por Freud como “impossível”, as escolas hoje se veem diante de uma nova demanda: fazer diagnósticos e lidar com alunos através de categorias clínicas e não escolares. É um grande dilema poder manter, ainda assim, a missão educativa e humanizadora que é a grande função da escola, em detrimento de uma demanda de cientificidade e de tecnicismo. É importante debater esta demanda, questioná-la, para dar ao aluno o lugar de aluno e considerar a possibilidade de respeitar a singularidade de cada um no processo de aprender e de socializar.

Como a psicanálise percebe a questão da inclusão escolar da maneira que tem sido feita, e como pode auxiliar para uma inclusão de qualidade?

Para a psicanálise que trabalha com a noção mais ampla de educação – no sentido que abordei acima, de transmitir marcas simbólicas – a inclusão é essencial como parte do tratamento das crianças com graves questões físicas, sensoriais e psíquicas. Somente o fato de a criança receber o lugar de aluno, próprio a todas as crianças, já é fundamental na formação de sua identidade. Uma inclusão de qualidade é aquela que realmente dá lugar ao aluno na escola, considerando sua diferença, mas atribuindo-lhe a possibilidade de ser um aluno como os outros. Este processo é importante não somente para o aluno de inclusão, mas para todos os alunos e para a escola, pois é transformador das relações, incita a questionar as soluções rotineiras e fáceis.

Em entrevista concedida
Ligia Gomes Víctora

Em entrevista concedida ao Studio de Psicanálise, em outubro de 2013, Ligia Gomes Víctora fala sobre a Topologia e sua aplicação à Psicanálise.

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Ligia Víctora é Psicanalista. Membro da APPOA. Membro da ALI. Responsável pelos Seminários de Topologia da APPOA

O que é topologia? O que caracteriza a topologia?
A topologia é um ramo das Matemáticas – provavelmente o mais jovem. Aparece no final do século XIX, em textos de Poincaré e de Listing. Embora seus primórdios datem do século XVIII, com Euler e a solução para o problema das pontes de Königsberg, que envolviam uma lógica entre sete pontes que ligavam as três regiões da cidadezinha. No início foi chamada de Analysis situs, que significa o estudo da posição ou do lugar.
Caracteriza-se por ser uma “geo-não-metria”, pois não interessam as medidas de tamanho ou de ângulos, mas apenas as vizinhanças entre os pontos e certos invariantes que devem ser respeitados.

É possível afirmar que Freud fez uso da topologia?
Sim, ele tentava em seus esquemas utilizar a topologia, que chamava de “Topografia”. Embora ele fosse absolutamente contemporâneo da banda de Möbius, que foi criada (ou descoberta) em 1858 (Freud nascera em 1856) – ele não a conhecia. Se a conhecesse, teria tido respostas para certos problemas que o acompanharam por toda sua obra – como aquele de como algo “entra” no Inconsciente e como “sai” para o Consciente, embora ainda lá permanecendo.

Pode-se dizer que as figuras topológicas podem ajudar a identificar a estrutura clínica do Sujeito ou a posição subjetiva deste que se apresenta demandando uma análise?
A Topologia ajuda a compreender e a formalizar a Psicanálise, uma vez que precisamos sempre de outra linguagem lógica para poder afirmar que uma sentença é verdadeira. Lembrando que “estrutura”, para nós, significa a maneira como o sujeito lida com os significantes advindos do outro. Estas modalidades de reação – ou de implantação do nível simbólico – é o que nos diz se o sujeito é neurótico ou psicótico. Suas “relações com a realidade”, como diria Freud. E isto muda durante uma psicanálise.

Há especificidades para a psicanálise com crianças, adolescentes e adultos, no que se refere aos objetos topológicos?
Sim. Podemos pensar em figuras e nós diferentes para cada paciente. Cada um amarra seu nó do seu jeito, como diria Marc Darmon.

Em seu livro Topologia e Clínica Psicanalítica você sustenta a hipótese de que é possível haver migrações entre estruturas clínicas. Como a topologia ajuda a pensar essa questão de migração ou passagem de uma estrutura a outra?
Partimos do princípio de que há uma característica diferenciável para cada estrutura ou “variedade topológica” – como se diz em Topologia – e de que existe uma passagem possível entre as diferentes variedades, desde que se façam cortes e colagens, mantendo-se os mesmos pontos anteriores – o que se chama de “homeomorfismos não-isomórficos” ou “difeomorfismos”. Da mesma forma, podem-se operar cortes durante uma análise na fala do analisando, que irão fazer com que seu discurso se reorganize sob outras formas.
Os cortes são feitos pela interpretação, pontuações no discurso do paciente, etc. E se dão sempre através da palavra, é claro. Todo ato analítico se dá sobre e através da palavra.
A história do paciente continua a mesma, mas a maneira dele contar e lidar com ela pode ser muito diferente.

O que a hipótese das migrações lança como desafio para o trabalho clínico? Quais implicações trazem para os psicanalistas hoje?
Os diagnósticos nosográficos (por sintomas ou síndromes) – da DSM – ou nosológicos (por estruturas) – da CID – que aprendemos na Universidade, assim como os antigos rótulos das primeiras classificações das doenças anteriores a Kraepelin – que dividiam os loucos entre “insensatos”, “furiosos”, “imbecis”, etc… – são como rótulos fixos e não condizem com o que vemos em nossa clínica.
O que lidamos no cotidiano da psicanálise são, na maioria dos casos, pessoas com histórias extraordinariamente plásticas, maleáveis, e ansiosas por mudanças. Embora muitas se afeiçoem a seus sintomas e estes sejam persistentes, ou resilientes, observamos muitas vezes alterações do discurso compatíveis com passagens entre neuroses e mesmo da psicose à neurose e vice-versa. Os estereótipos psiquiátricos fechados e imutáveis não condizem com o que vemos, mas a topologia nos ajuda a compreender e formalizar o que se passa em nossa clínica.